Trabalho mental e adaptação da rotina ajudam atletas

Em tempos de coronavírus, criar uma sensação de rotina é fundamental. A orientação, que se aplica tanto aos atletas de alto rendimento como à população em geral, é das psicólogas do Comitê Olímpico do Brasil (COB) Carla Di Pierro e Alessandra Dutra. Desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou pandemia do novo coronavírus (COVID-19), a dupla precisou adaptar seu trabalho para atender os atletas nesse momento de dúvidas e hesitações.
 
“No meu trabalho, a primeira mudança aconteceu nos atendimentos presenciais. Eu já atendia atletas que estão fora do país de maneira remota, mas agora todos passaram a ser online. A maior demanda deles é que a cada dia temos notícias novas, gerando incerteza e levando à instabilidade. Todos têm um planejamento detalhado e uma rotina de treinos, o que está sendo afetado por causa do coronavírus. Eles estão tendo que se reorganizar também mentalmente”, explica Di Pierro, que trabalha desde 2012 no esporte olímpico e atende atletas como Flávia Saraiva (ginástica artística), Ana Marcela Cunha (maratonas aquáticas), Bruno Fratus (natação), Luisa Baptista (triatlo) e Patrícia Freitas (vela).
 
Dutra, que entrou para o time do COB em 2014 e trabalha com Henrique Avancini (ciclismo MTB), Vinicius Figueira (karatê) e Iêda Guimarães (pentatlo moderno), entre outros, aponta que a maioria dos esportistas brasileiros possui duas características positivas para momentos de crise: adaptabilidade e resiliência.
 
“O atleta brasileiro é muito criativo, lida com as adversidades de uma maneira muito peculiar. Isso facilita para a criação de uma nova rotina. Já a nossa resiliência tem o humor como um dos seus pilares. E esse humor é muito esperançoso, fazendo com que sejamos mais positivos e ajudando a manter o treino e o engajamento para as competições que virão pela frente.”
 
Di Pierro e Dutra ressaltam que uma nova rotina adaptada é essencial para continuar focado nos objetivos traçados. A equipe técnica deve levar em consideração as atuais circunstâncias e analisar todas as possibilidades. Quem acompanha as redes sociais de atletas e confederações esportivas já se deparou com vídeos em que eles treinam dentro de casa, enquanto seguem a orientação de isolamento social e higienização da OMS.
 
“A maioria dos atletas está em casa, o que traz ansiedade. A pergunta mais frequente é: ‘o que faço agora?’. Estamos ajudando a flexibilizar o plano único a que eles estão acostumados e trabalhando um dia de cada vez.”, afirma Di Pierro. Outra preocupação é com o excesso de notícias. “Pedimos que eles busquem informações claras e objetivas de órgãos confiáveis. O excesso de informação sobre a COVID-19 pode elevar a ansiedade”, alerta Dutra.
 
Além das recomendações dadas à população, os atletas de alto rendimento devem ter atenção redobrada com a higienização dos materiais usados, e na manutenção de uma distância de um a dois metros em relação às outras pessoas. As psicólogas dizem que o foco no que pode ser controlado, como sono, alimentação e saúde mental, são fundamentais para evitar o estresse.
 
“Criar uma rotina que ajude o equilíbrio emocional, com o uso do mindfullness e meditação, é fundamental. Uma opção que estamos preferindo é o treinamento mental. O atleta pode se organizar e treinar aquilo que ele quer melhorar. Quem busca melhorar algo específico, por exemplo, mentaliza o movimento, visualiza, para aprimorá-lo. Já existem estudos validando essa prática e criamos um protocolo para esse tipo de exercício”, enfatiza Carla Di Pierro.