Henrique Prata, o cowboy missionário do Hospital do Cancer de Barretos

Barretos 8 (Foto: Filipe Redondo/ Epoca)
 
Parece Nashville, mas é Barretos. As construções azuis do Rancho Nossa Senhora de Guadalupe são uma clara referência ao estilo country dos Estados Unidos. Bem ao gosto do dono, o fazendeiro Henrique Prata, de 62 anos, diretor-geral do Hospital de Câncer. Em 2011, ele encasquetou com a ideia de convencer o cantor americano Garth Brooks, segundo maior vendedor de discos na história do país, a tocar em Barretos e doar a bilheteria ao hospital. Brooks, o maior astro country americano, vendeu 135 milhões de cópias (atrás apenas da marca de 178 milhões, atingida pelos Beatles). Henrique viajou para Las Vegas com o filho e a nora e deu um jeito de se enfiar no camarim do ídolo. O discreto Antenor fora escalado para verter para o inglês os arroubos do pai. Na hora em que o velho disse que Brooks era maior que Elvis, Beatles e Rolling Stones, o filho perdeu a paciência:
– Aí já é demais, não é pai?
 
O americano não entendeu, mas se encantou com o perrengue caipira. A conexão se fez. Quatro anos depois, ele estava mergulhado na jacuzzi do rancho de Henrique, bebendo o incomparável suco de laranja-lima com o qual o dono da casa conquista o coração dos visitantes e se divertindo à beça com o anfitrião – sem que um soubesse a língua do outro. O show, realizado na última Festa do Peão de Barretos, em agosto, rendeu R$ 6,2 milhões ao hospital. Um sucesso que não chegou a ser ofuscado pelo acidente que Henrique sofreu durante um rodeio. Na festa, ele é madrinheiro – uma espécie de salva-vidas que, a cavalo, resgata o peão que salta do animal em movimento. Levou um coice que provocou uma fratura exposta no braço direito. O resultado: cirurgia, placa, 13 pinos e uma cicatriz que atravessa o antebraço. O acidente estremeceu as relações entre ele e Samurai. O cavalo preferido, companheiro de todas as horas, não é mais o mesmo. Aos 16 anos, dá sinais de velhice. É um dos 35 animais que ocupam a cocheira bem ao lado do escritório de Henrique. Basta levantar da cadeira, virar à esquerda e entrar nas baias. A localização é proposital. “Gosto do cheiro”, diz ele. “Essa é a minha cultura.”
 
No “rancho” de 61 alqueires, ele cria 100 cavalos de rodeio e mais 50 quartos de milha. “Não queimo dinheiro”, diz. “Esse é um prazer que dá lucro.” A fortuna, de verdade, ele produziu com a pecuária. Diz que cria 30 mil cabeças na Região Norte. O paulistano, que estudou só até o ginásio, aprendeu a negociar numa das fazendas do avô, em Barretos. Por ele foi criado desde os 5 anos. Além da propriedade no município, Henrique tem hoje outras cinco fazendas no interior de São Paulo, em Mato Grosso e em Rondônia. Cada uma delas leva o nome de um santo.
 
Quando o assunto é política, Henrique não tem preferências explícitas. Com ele, é uma no cravo, outra na ferradura. Critica a imoralidade da classe, mas mantém boas relações com tucanos, petistas e com quem mais for necessário para atrair verbas para a instituição. Batizou a unidade de Jales com o nome do governador Geraldo Alckmin. Foi um desgosto para a fazendeira Eunice Diniz, uma das cinco maiores acionistas do Banco Itaú. Depois de doar os R$ 6 milhões para a construção do hospital, ela esperava que fosse a homenageada. Na hora H, a honraria não veio. O nome oficial do Hospital de Câncer InfantoJuvenil, em Barretos, é Luiz Inácio Lula da Silva. O prédio é carinhosamente chamado de Lulinha. Henrique é grato ao ex-presidente.“Ele sempre me recebeu e foi sensível a nossa causa.” Afirma que o nome do hospital não muda. “Não tiro o nome da placa. Nem se ele for preso.”
 
Na última quinta-feira de novembro, Henrique almoçava, em família, um peixe com molho de camarões graúdos. Antes, regou a salada com azeite trazido por ele da Toscana. Entre uma garfada e outra, trocava mensagens pelo celular com a cantora Paula Fernandes. Ela resolveu ajudá-lo a convencer outra estrela internacional a tocar em Barretos e doar a bilheteria ao hospital. A canadense Shania Twain, a mulher mais bem-sucedida da história da música country, é o novo milagre que o caubói missionário quer fazer acontecer.