O neozelandês Mark Todd ensina o caminho da glória ao hipismo do Brasil

Durante uma chuvosa tarde em Barretos, um homem esguio acompanha atentamente a movimentação dos cavalos na pista enlameada e dá ordens com tom de voz firme. Não em português com sotaque paulista, como podia-se esperar na cidade que abriga o maior rodeio da América Latina, mas em um inglês aristocrático. É Mark Todd, o nobre treinador da equipe brasileira de CCE, uma das provas olímpicas do hipismo.
 
Sir Mark Todd. Nascido em Cambridge, uma pequena cidade da Ilha do Norte da Nova Zelândia, foi nomeado cavaleiro justamente por seus feitos sobre o cavalo – são cinco medalhas olímpicas e dois títulos mundiais. Recebeu o título de cavaleiro da Ordem do Mérito da Nova Zelândia em cerimônia conduzida pelo príncipe Charles, filho mais velho da rainha Elizabeth II, no Palácio de Buckingham.
 
O neozelandês é um dos 49 técnicos estrangeiros contratados pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) para tentar colocar o país-sede no top 10 do quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016.
 
A missão de Todd no Brasil é executada um haras na capital nacional do rodeio, onde treina os atletas do conjunto completo de equitação (CCE) para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. Ao mesmo tempo, prepara-se para competir uma vez mais por seu país.
 
“Já vi as instalações na cidade, mas ainda não o rodeio”, diz, apoiado em uma cerca de madeira do haras. “Temos uma propriedade com bons equipamentos de treinamento e competição aqui. E essa parece ser uma área central para os cavaleiros brasileiros”, completa, explicando a escolha do local.
 
No Brasil, o neozelandês trabalha no Haras Horse Cross, dentro do Sítio Santa Maria, de propriedade de Márcio Jorge, atleta vencedor do evento-teste do hipismo para os Jogos Olímpicos de 2016. O atleta nacional cede seu espaço, na Estrada Vicinal Nadir Kenan, para os companheiros treinarem, e sua casa para o neozelandês ficar.
 
Todd não mora no País. Viaja a Barretos para sessões esporádicas de orientação, geralmente em semanas que antecedem competições. Por isso, não esteve presente nos treinos que a Seleção fez no Estádio de Rodeio de Barretos durante o período de preparação para os Jogos Pan-Americanos de Toronto 2015.
 
Quando está no Brasil, quase não deixa o Haras Horse Cross. Trabalha com os atletas da equipe nacional e algumas jovens promessas da modalidade em dois períodos, faça chuva ou faça sol. Divide o trabalho braçal nas pistas, as refeições e os conselhos com todos.
 
O único momento de lazer é o jantar, muitas vezes feito em restaurantes no centro urbano de Barretos – a dez minutos e duas estradas de terra de distância. Para relaxar, prefere vinho a caipirinha. Comumente rejeita o churrasco, já que não costuma incluir carne vermelha em sua dieta.
 
Todd trabalha com os atletas nacionais, faça chuva ou faça sol em Barretos (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)
 
“Vocês têm muitas frutas e vegetais frescos. É incrível como você pode encontrar qualquer coisa para comer aqui. Há bons peixes, comida japonesa, comida brasileira”, cita.
 
Todd não fica mais tempo no país-sede das próximas Olimpíadas porque tem sua própria rotina de treinamento. Enquanto aconselha os atletas nacionais para os Jogos, se prepara como competidor para o evento em busca de um recorde: o de maior intervalo entre medalhas.
 
Seu primeiro pódio olímpico foi em Los Angeles 1984, em que conquistou o ouro individual. O último, em Londres 2012, em que foi bronze por equipes com a Nova Zelândia. Todd ainda tem no currículo outro ouro (Seul 1988) e dois bronzes (Seul 1988 e Sydney 2000).
 
Se conseguir novo pódio no Rio 2016, terá 32 anos de intervalo entre as medalhas e deixará para trás o húngaro Aladar Gerevich, que detinha sozinho o recorde até os Jogos na capital inglesa. Considerado um dos maiores esgrimistas da história, ele subiu ao pódio dez vezes em Olimpíadas. A primeira, em Los Angeles 1932. A última, em Roma 1960.
 
“Minha primeira paixão é competir. Se conseguir me classificar ao Rio, terei papel duplo e não vejo isso como um problema. Algumas pessoas podem achar que um compromete o outro, mas posso fazer os dois trabalhos igualmente bem”, garante o cavaleiro, de profissão e da realeza.
Todd vai aos Jogos Olímpicos do Rio como técnico do Brasil e atleta da Nova Zelândia (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)
 
Se isso for verdade, a equipe nacional do CCE pode começar a sorrir. O neozelandês, que reside na Inglaterra desde a década de 1970, é um dos maiores nomes da história da modalidade. Se não for o maior. Por isso cada sessão de treinamento a seu lado é tão valorizada pelo time nacional.
 
“Quando ele veio pela primeira vez eu pedia para encostar nele para ver ser era verdade”, revela Ana Paula Perracini, diretora de CCE da Confederação Brasileira de Hipismo. “Nós temos o hábito de duvidar de algo que está fora do nosso conhecimento, mas não dá para dizer que o Mark Todd não sabe o que está falando. Não tem essa possibilidade. O cara é espetacular”, completa.
Mark Todd foi nomeado cavaleiro da Ordem do Mérito da Nova Zelândia pelo príncipe Charles
 
Foi o currículo esportivo do neozelandês, trabalhando como técnico do Brasil desde 2013, que lhe rendeu honrarias reais. Em 1985 foi apontado como membro da Ordem do Império Britânico. Dez anos depois, promovido a comandante. A condecoração máxima veio na mesma temporada em que começou a trabalhar com a Seleção. Em maio, foi nomeado cavaleiro da Ordem do Mérito da Nova Zelândia no Palácio de Buckingham seis dias após a morte de seu pai, Norman.
 
A cerimônia em Londres ocorreu na sexta-feira. Na segunda, estava em casa para o funeral de seu maior fã. Apesar de independente politicamente do Reino Unido, a Nova Zelândia é uma monarquia constitucional e reconhece a rainha Elizabeth II como chefe de estado.
 
“Ser cavaleiro geralmente é o reconhecimento por ter alcançado certo sucesso na sua vida. Não é relacionado ao esporte, pode ser em qualquer área. Então fiquei muito honrado por ter sido nomeado”, diz.
 
Mesmo quando Todd não está no Brasil, os atletas seguem o sistema de treinamento que ele desenvolveu depois de anos de sucesso em cima do cavalo e a experiência de técnico da Nova Zelândia nas Olimpíadas de Atenas 2004. Alguns dos brasileiros ainda aproveitam viagens a competições na Europa para manter contato com o treinador.
 
A comunicação é feita sempre em inglês. As esporádicas viagens ao Brasil e o salário pago pelo COB não foram suficientes para o treinador aprender português, mas ele se diz satisfeito com a evolução do inglês de seus comandados.
 
Isso também ajuda os atletas nacionais a saírem da zona de conforto. E eles já começam a ver os resultados do trabalho. No Sul-Americano de 2014, realizado em Barretos, o País conquistou o título por equipes e duas medalhas no individual. Nos Jogos Pan-Americanos de Toronto 2015 foram outros dois pódios.
 
No Canadá, o Brasil levou a prata por equipes e Ruy Fonseca ficou com o bronze, conquistando a primeira medalha individual do Brasil no CCE em 20 anos. Último a entrar na pista na fase derradeira da competição, ele liderava a disputa, mas cometeu uma falta no obstáculo final do Pan e caiu para o terceiro lugar.
 
A diferença de nível para as Olimpíadas é grande, como gosta de ressaltar Todd. No Pan, os Estados Unidos levaram o ouro por equipes e tiveram a campeã individual, a amazona Marilyn Little. Em Londres 2012, o país norte-americano ficou em sétimo. O Brasil, em nono.
 
Mas uma equipe que trabalha sob orientação de Sir Mark Todd se permite sonhar. “Não somos os favoritos, mas pela primeira vez estamos acreditando que podemos chegar lá”, revela Paula Perracini. “Ele também teve um começo em um país que não era tradicional no CCE e hoje tem muita força. Ele começou isso sozinho, foi lá e fez”.
Mark Todd transformou a Nova Zelândia em potência olímpica no CCE (Foto: Fernando Dantas/Gazeta Press)
O próprio treinador da Seleção Brasileira já acredita que as Olimpíadas do Rio 2016 possam mudar o rumo da modalidade no País. E conta com a imprevisibilidade da competição do CCE para isso. Cada atleta se apresenta em três dias: um no adestramento, outro no cross-country, e o final nos saltos.
 
Com isso, são também três as chances para reviravoltas, decepções e surpresas no Centro Olímpico de Hipismo, em Deodoro, local da disputa nas Olimpíadas do Rio. Uma boa participação da Seleção poderia aumentar a exposição da modalidade no País, onde o hipismo é mais conhecido pela prova de saltos, que já deu três medalhas olímpicas ao Brasil.
 
Em Atlanta 1996 e Sydney 2000 a equipe nacional levou o bronze. Em Atenas 2004, Rodrigo Pessoa, montando Baloubet du Rouet, conquistou o ouro individual alcançando a redenção após as célebres refugadas de sua montaria quatro anos antes quando brigava pelo título.
 
“Se conseguirmos ter os melhores cavaleiros com os melhores cavalos, eles são capazes de ter uma boa performance. E com um pouco de sorte, quem sabe?”, diz Todd já com otimismo brasileiro. “A medalha é possível”.
 
Fonte: Gazeta Esportiva