Por que a mula é infértil?

No desenvolvimento das espécies, quando duas linhagens se distanciam no seu processo evolutivo, vão gradativamente se especializando e modificando seu genótipo por mutações e seleção natural, de tal forma que muitas vezes, um retorno a uma espécie comum torna-se impossível. Isto ocorreu com inúmeros animais, mas o caso do cavalo e do jumento é o que melhor ilustra este fato.

As duas espécies saíram de um tronco comum e se mantiveram isoladas, sem misturar seus genes, desenvolvendo características diferentes de acordo com a seleção natural: O cavalo que vivia em grandes manadas nas pradarias, desenvolveu maior musculatura, cascos largos, temperamento explosivo, rapidez e agilidade para fugir dos predadores. Já o jumento, que teve durante muito tempo seu habitat em regiões desérticas, montanhosas e rochosas do norte da África e Oriente Médio, sofreu menor pressão de seleção natural para a fuga, tornando-se um animal mais observador e desconfiado.

O desenvolvimento independente provocou o aparecimento de duas espécies diferentes: o cavalo com 64 cromossomos e o jumento com 62.

O cruzamento entre estas duas espécies produz o Muar ou o Bardoto (2n=63), ambos considerados híbridos.

A primeira explicação da esterilidade do híbrido foi dada por Wodsedalek em 1916 que sugeriu como motivo da não produção de espermatozóides pelo macho, um bloqueio na meiose devido à incompatibilidade dos cromossomos dos pais. Em 1973, Taylor e Short demonstraram que um bloqueio parcial da meiose ocorria também na fêmea híbrida, provocando um baixíssimo estoque de oócitos ao nascimento.

Entretanto, nos últimos 200 anos existem por volta de 60 registros de mulas paridas em todo o mundo, sendo que apenas nas ultimas duas décadas houve confirmação pelo exame do cariótipo. Na maioria destes casos o produto das mulas tem cariótipo de Jumento, Cavalo ou Muar, dependendo do reprodutor usado e dos cromossomos presentes no ovócito. Henry e al. acompanharam vários partos de uma mula em Minas Gerais cruzadas tanto com cavalo quanto com jumento e as crias tinham o nº de cromossomos igual ao do reprodutor usado e eram férteis, portanto houve uma volta para uma das duas espécies originais Apenas em um caso na China com uma bardoto fêmea e outro mais recente em Marrocos de uma Mula parida, constatou-se um cariótipo intermediário, não sendo possível classificá-lo nem como Jumento, nem Mula e nem Cavalo.

Uso da Mula como receptora

Como características externas, uma boa égua receptora deve possuir as duas tetas funcionais, bom porte, baixa exigência nutricional permanecendo sempre com aspecto de bem nutrida, pêlo liso e boa habilidade materna, (termo que inclui, além da produção de leite, cuidados com a cria como deixar mamar e ter bom instinto de proteção.). Além disto serem dóceis e de fácil manejo.

Como histórico, devemos saber: costuma perder o embrião? Intervalo entre partos de um ano? Sempre desmama potros desenvolvidos?

Ao exame ginecológico, deve possuir vulva em posição vertical e com bom fechamento, todo o sistema reprodutivo de tamanho normal, útero com tônus e cérvix fechada na fase progesterônica e cérvix aberta e presença de edema na fase estrogênica, alem de boa drenagem uterina: sem líquidos na luz uterina e nem cistos endometriais. Os ovários devem ser normais e de preferência ativos.

Com estas premissas em vista, os veterinários Euler Andrés Ribeiro e Marcelo de Oliveira Mello, especialistas em reprodução eqüina radicados em Entre Rios de Minas, resolveram testar o uso de mulas como receptoras de embrião e criaram o projeto MULA PARIDA.

Na estação de monta 2006 / 2007, cinco mulas foram usadas para o teste na fazenda Sta Edwiges em Lagoa Dourada, criatório tradicional de muares e jumentos da raça Pega.

O trabalho consistiu em avaliar criteriosamente as receptoras, descartando as que não se enquadrassem no padrão exigido, inseminar as éguas, acompanhar a ovulação e fazer a transferência do embrião no D8 para 5 “mulas de elite”. Devido à dificuldade de se sincronizar as ovulações das mulas com das doadoras, observado por Davies (1985) e Camillo (2003), foi optado por adaptar para as mulas, protocolo hormonal de progesterona. Segundo os trabalhos publicados em todo o mundo, até então toda tentativa de se usar protocolo de progesterona para manter gestação em mulas havia fracassado (Camillo 2003). No presente trabalho, foram transferidos um total de sete embriões para 5 mulas em 3 períodos de cio diferentes: três animais foram diagnosticadas como gestantes aos 14 dias e um animal perdeu o embrião logo após.

O criatório de jumentos Pega da fazenda Santa Edwiges é um dos melhores do país, sendo o seu proprietário, Tarcísio Resende, grande entusiasta do uso da tecnologia aplicada à agropecuária.

Fonte: ABCJPÊGA